Ressaca

Eu queria ser essa mulher suficiente. Não esse receptáculo meio cheio e meio vazio. Porque essa meia insuficiência reprime a minha feminina maturidade na base da porrada e me vem a vontade de não ser o que sou hoje, mas ser aquilo que eu era quando olhava tudo de baixo para cima. Pessoas gigantes e problemas pequenos.

Há uma espera frenética para o envelhecimento e, quando ele chega, há uma esperança irracional para que ele retarde. Eu apenas engulo tudo isso, gorda de observar a loucura estranha de dentro e a minha própria de fora, imaginando que é por isso que dizem tanto sobre o “peso da velhice”.

E nesse “pé” de gente, sou essa fruta verde-podre. Eu me amo ou me deixo? Já não sei. Alguns “alguéns” decidiram não me deixar. Disseram-me “seus olhos”, “sua voz”, “seu jeito”, “suas coxas”, “sua bunda”, “seu sexo” e foi indiferente, nem liguei. Desliguei. Como o ato de desplugar um cabo, botar um fim em toda corrente elétrica. Mas aí, logo em seguida, deito-me em uma cama vazia e a leveza me pesa.

Eu gostaria de ter os pés seguros, como quem anda carregando uma suficiência concentrada, feita de combustível puro, tão puro que me basta um shot para ficar animadoramente bêbada de mim mesma e sem toda aquela depressão dos viciados que ficam horas e horas nos bares com os olhos vermelhos, boca empapada de cerveja, mas a mente sã.

Mas, se uma mão me oferece, por detrás do balcão, feminilidade em tequila ou absinto; forte, direto, limpo garganta abaixo, para engasgar todos os desejos de menina, tenho medo da ressaca eterna. Aquela força magnética, a correnteza que ninguém nada contra. E se você for se banhar, cuidado, risco de afogamento.

Ser suficientemente boa para mim, ainda que não o seja para mais ninguém.

B Scavuzzi

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Desde então, freakshow

São sempre quatro paredes aparentemente flácidas que me acompanham. Companheiras de um corpo parado e de uma mente navegante. Tranquei-me. Após quinze tiros, tranquei-me. Após uma morte, quinze tiros, tranquei-me. Após minhas morte, uma morte, quinze tiros, tranquei-me. E agora sempre que escrevo, choro.

” ‘É com imenso desprazer que lhe apresento: a sua presença’ “, digo a você, que tanto fez que morreu. É a apresentação de um circo, de cores vivas, como outros circos, assustadoramente vivas, caóticas para a vista. Veja, eu na corda bamba, a velha cansada cuspidora de fogo e a primogênita trancada na jaula e exposta ao público.

” ‘Freakshow familiar, baby.’ ”

Atuo e assisto. A atriz é pobre, a espectadora é rica. Primeira fileira, cadeira VIP; ação? Muito pouca ou nenhuma.

Na mesa da sala havia um enfeite, chique, transparente, grosso, bem feito. O artista, idealizador desse belo adorno, havia imitado uma concha, dessas que quase não se vê inteira na beira da praia, para que dentro do enfeite fosse possível colocar pedrinhas de diferentes tons de azul. Nuances do mar, eu imaginava desde que o haviam comprado e posto ali, naquela mesinha de centro. Nada disso é metáfora, não há necessidade de você, leitor, quebrar a cabeça. O enfeite, agora, é metade adorno e metade briga, no estilo “isso não é um cachimbo“, é só a ideia de uma discussão que resultou na tentativa de tacá-lo na minha cara. Eu segurando suas mãos e você me negando como filha.

Perdoe-me, sei que falo com inúmeras pessoas ao mesmo tempo e às vezes nem eu sei a quem dirijo a palavra, como agora. E realmente importa? Falar, simplesmente falar derrubaria todo circo e acabaria com toda a palhaçada. Isso não é mais festa de criança, é diversão madura, adulta. O sexo e as drogas que prometeram após os 18’s não são verdade, quem dirá o rock’n roll que há muito não está nos seus melhores dias.

Eu preferiria morrer de overdose na época que o Cazuza me olharia nos olhos e diria “você é uma heroína“, a lutar para reviver ano após ano a vivência que tive dos tiros na porta de casa…

[…] É estar constantemente vivendo de morte e morrendo de vida.

 

B Scavuzzi

O Dia que Fumei pela Última Vez

Música: Coeur de Pirate – Wicked Games

Faz tão pouco pra mim que já não sei se te faz tanto. Hoje, de longe, sua presença passava de boca em boca, de trago em trago. Você estava ali agressiva, feito rock dos anos 70 estourando os tímpanos. Pena que o século é outro; o amplificador é mudo e o teu sucesso antiquou-se.

Efêmero.

Até que te ofereceram. Sabor esquisito, difícil de deixar de tragar, sabe? Se quiser é teu, disseram-me. Assim você reapareceu, tão doloroso de recusar como sempre: todas as formas responsáveis possíveis para escapar foram suprimidas pela espontaneidade da oferta. Entregavam-me ouro de graça sem saber.

Aceitei; ao segurar e fumar-te, a brasa queimava em mim.

Meu beijo era sôfrego para um tempo que havia passado pouco. Pra mim, antes, não havia nem ao menos uma semana de solidão, sendo que já haviam se passado cem anos  e (incrível!) apenas havia sentido ali, na superfície envelhecida dos meus lábios. A vida havia recuado para a época que a cor escolhida para pintar minhas unhas seria aquela que te agradasse e melhor te marcasse pele-alma.

Eu te segurava; enquanto meus dedos tremiam por resguardar em um pequeno elemento toda essência concentrada de uma memória, eu conversava e ria, principalmente pra te ignorar no meu olhar, que procurava devorar pra enganar tanta fome, pois era quando você me comia que eu também me alimentava.

Acabou; já não tinha fumo o suficiente no toco sem graça que eu ainda protegia. Apaguei. Foi tão simples como antes, o século é outro e desprender-se é fácil na teoria, ainda que fosse o sabor do teu vício misturado com cerveja que eu experimentava na prática. Na prática, minha mão estava marcada com um cheiro tão conhecido de alguns anos e lençóis antes.

Praticidades à parte, sempre fui teórica, de uma insensibilidade quase científica. De tempos em tempos são grandes ou pequenas as revoluções que me desvirtuam e que sou obrigada a silenciar; matar da mesma forma que se joga água no fogo. Hoje, usei-te em público e procurei aniquilar-te.

Obsceno e hediondo, ambos em um ficcional momentâneo que violou minhas medidas austeras. Imagino que é por isso que condenam a beleza poética do fumante: é perda de controle, é barbárie, é suicídio.

Ai de nós se eu não fosse teórica.

“Trinta Dias Póstumos” – B. Scavuzzi